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Olhei espantado para Gabriel, dei um passo para trás demonstrando relutância em ter confiado nele.

Ele me olhou como se implorasse para que acreditasse que ele não fazia parte de tudo aquilo, tentou se aproximar de mim para iniciar uma explicação perante o que ele havia acabado de me mostrar mas dei o dobro de passos para trás evitando qualquer contato físico.

Eu: “Quem mer..da é essa?” – Disse enquanto engasgava com minha própria saliva.

Gabriel: “Tem muita coisa que você não sabe, e tem muita coisa que eu tenho que te explicar. Mas ambos temos apenas o que ganhar neste momento, então confie em mim”. – Proferiu avidamente e convictamente.

Neste momento eu não o reconhecia mais, o nojo e ódio que eu tinha por ele antes de nosso reencontro voltou para minha garganta mais forte do que nunca. Sua postura havia mudado, estava ereto com o pescoço erguido, parecia emanar uma certa autoridade ou talvez “certeza” do que havia me dito.

No entanto, não tinha o que fazer, já tinha perdido muito tempo com papo furado e a minha amiga se encontrava em uma situação ferrada pra eu ficar questionando.

Eu: “Tanto faz. Você é e sempre será o mesmo lixo que eu conheço. Só me explica a merda do seu plano e o porque ambos temos o que ganhar com isso.”

Ele me olhou cabisbaixo dessa vez, parecia que sua confiança havia se esvaído repentinamente.

Gabriel: “Pulando detalhes para poupar tempo, digo que eles tem controle sob pessoas importantes pra mim. Fui obrigado a entrar nessa. Os poucos que se recusam a participar desse esquema pútrido tem suas vida arruinadas, eles pegam pessoas próximas a você e simplesmente matam para usar seus restos par-.. Bem, você sabe pra que. Ouvi dizer sobre uma ex-funcionária de onde você trabalha, que se matou recentemente..”.

Eu: “Sim, eu praticamente presenciei esse momento”. – Interrompi-o com meus olhos petrificados olhando para ele enquanto explicava.

Gabriel: “Não se perguntou o que a levou até aquela situação? Com certeza mataram alguém muito próximo dela.”

Eu: “Puta merda, mas porque pegaram a Bruna em vez de algum parente?”

Gabriel: “Você sabe bem porque, não se faça de burro. Você usou a internet deles para conversar com a Bruna no celular, provavelmente quando falava com seus pais você já havia saído do trabalho, assim eles não conseguiam informações.”.

Apesar de aquilo parecer loucura, fazia muito sentido. Na verdade toda aquela situação era loucura.

Eu: “E qual seu plano?”.

Gabriel: “Vamos até o depósito e entrar, só isso. Na verdade eu vou. Para ter acesso aos locais que são patrimônios da prefeitura você precisar ter... A marca. Nunca entrei nesse depósito por medo do que encontraria, não sei se meu estomago e meu psicológico suportaria.”. – Disse enquanto olhava tristemente para seu pulso.

Eu: “Certo, temos que nos preparar de algum modo. Vamos comprar rádios para a comunicação e armas para autodefesa. Com certeza o local não estará desprotegido.”.

Me virei em direção a mesa onde se encontrava a chave do meu carro. Parei durante alguns segundos enquanto me lembrava de que eu estava sendo observado pouco tempos atrás. Havia uma possibilidade de que eles tinham noção de todos os passos que estávamos dando e estariam se preparando para lidar com um futuro problema.

Gabriel:” Você está bem?”.

Ignorei a pergunta e desci as escadas para ir até o carro e finalmente podermos nos preparar para invadir o depósito onde se encontrava Bruna.

O local era consideravelmente longe. Um silêncio extremamente mórbido se instaurou no carro enquanto eu dirigia, meus pensamentos estavam consumidos de preocupação com minha amiga. Tentando evitar pensar em hipóteses terríveis para o destino dela, resolvi puxar assunto.

Eu: “Temos cerca de 15 minutos até a loja em que comprarei os preparativos pra invasão e mais 20 minutos até o depósito. Então, que tal me contar como entrou nessa e o que está acontecendo?.”.

Ele se manteve em silêncio por alguns segundos enquanto olhava pela janela, parecia distraído.

Gabriel: “Tem certeza que quer saber?.”.

Eu: “Eu já estou sendo alvo de morte por saber o pouco que sei, então que diferença faz eu saber a história toda?”.

Contarei agora resumidamente o que ele me disse naqueles minutos.

Ele, assim como eu, passou em um concurso público, mas com o intuito de dar aula nas escolas públicas de Assis. Assim que entrou, notou que o ar emanado pelos professores parecia estranho. Como se todos estivessem ali por obrigação, mas inicialmente ignorou, achando que eram daquele jeito por terem um trabalho desgastante que não era tão valorizado moralmente e nem financeiramente.

Pouco tempo depois, resolveu questionar aquilo conversando com uma professora que havia feito amizade. Ela se esquivou de todas as perguntas, mas disse que ele descobriria por contra própria em breve.

Tempos depois, ele estava lançando as notas dos alunos no sistema da prefeitura, quando viu que o nome de um aluno que havia faltado a toda a última semana estava em vermelho. Ao passar o mouse por cima do nome, ele percebeu que se tratava de um link externo que o direcionava para um domínio diferente mas que ainda assim pertencia á prefeitura. O site que abriu era o mesmo que eu vi no computador do meu chefe, ou seja, possuía fotos, vídeos e relatórios da morte do aluno dele. Assim como eu li de Gabriela Lara.

Ele permaneceu dias, meses, traumatizado e com o mesmo olhar morto de todos os outros professores, quando ele resolveu levantar a cabeça e fazer algo a respeito de toda aquela conspiração. Foi avidamente até a sala do coordenador da escola e questionou tudo o que havia visto, mesmo que isso talvez levasse-o á morte, ele não se importava, havia terminado um relacionamento poucos dias antes e agora nada mais lhe importava mesmo.

Mas ao em vez de ser morto, na verdade devido sua tranquilidade, o coordenador resolveu recrutá-lo para ajudar na administração de abastecimento de carne do município, e caso ele demonstrasse bom desempenho, poderia ser promovido para administrar o estado de São Paulo. Ou seja, toda aquela merda ocorria no estado inteiro.

Gabriel não soube explicar o porquê e nem como aquilo era possível, mas me afirmou com toda a certeza nos olhos, que ele havia recusado a oferta do coordenador e ficou apenas como funcionário da escola, e por ter permanecido ali por vontade própria, ele recebeu a marca no pulso. Visto que os outros funcionários ficaram na escola por receberem ameaças. Essa era toda a informação que ele tinha.

Dirigi mais alguns minutos enquanto processava tudo. O que ele me disse não poderia ser de fato verdade, às vezes foi hipérbole do coordenador dizer que ele poderia administrar todo um estado. Duvido que o presidente permitiria todo esse genocídio por conta de abastecimento alimentício. Porra, a raça humana evoluiu por milênios para produzir os próprios alimentos.

Gabriel: “É AQUI PORRA, PARE O CARRO.”.

Não havia percebido que estava passando da loja. Compramos um rádio comunicador que poderia ser usada em um raio de 3km e facas militares, não dava para entrar com uma arma, com certeza ele seria revistado ao entrar no depósito pela primeira vez.

Seguimos nosso caminho por mais 20 minutos. 20 minutos silenciosos que pareciam intermináveis.

Parei o carro á 2 ruas de distancia para não chamar atenção. Olhei fixamente para o local onde antes era um pub que eu costumava me divertir, e agora me causava tontura e raiva por ter se tornado um abatedouro.

Gabriel: “Vou explicar o plano completo. Eu vou entrar utilizando meu “passe”, você ficará aqui até segunda ordem. Vou averiguar o local e afirmar a eles que estou ali para ver como está a organização do local, afinal já me ofereceram a administração disso tudo né, não é certo de que isso funcionará, mas tenho que arriscar. Vou tentar localizar a Bruna e te passarei a informação pelo rádio, então o mantenha ligado, assim você irá procurar uma entrada alternativa que te coloque perto de onde ela está. Eu vou causar uma distração, você entrará e irá soltá-la. No entanto Matheus, vocês nunca mais terão suas vidas de volta, vocês serão caçados por saberem de um segredo possivelmente nacional. Sabendo disso, balance a cabeça se estiver de acordo.”.

Fiquei mudo diante de suas palavras, o plano parecia péssimo, mas a vida real é assim mesmo. Nada é certo, não há plano perfeito, e tudo pode dar errado. Mesmo assim, balancei a cabeça afirmando que havia entendido e estava de acordo.

Gabriel: “Mais uma coisa. Eu não pretendo sair vivo de lá, pensei muito durante esses minutos no carro e é a forma mais segura de tirar você e sua amiga de dentro do abatedouro. Vou distraí-los com minha vida, literalmente. Irei destruir o local o máximo que meu corpo consegue, assim eles ficarão desesperados para manter o local intacto, afinal existe apenas um depósito na cidade inteira e não pode ser comprometido. Enquanto isso você já sabe o que fará. Então Matheus, não importa o que aconteça, corra com a Bruna e não olhe para trás. Eu estarei observando a fuga lá do céu, onde eu espero ir no final de tudo isso.”. – Disse ele enquanto escorriam lágrimas pelo seu rosto mantendo mesmo assim um sorriso esboçado em sua boca. Eu sabia que era nosso último minuto juntos, e mesmo assim, deixei-o sair do carro e ir rumo ao seu túmulo sem dizer que eu o amava.

***

Leia Mais: Eu não como mais carne - Final
Escrito Por: Matheus Muniz
De: Não Entre Aqui

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